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Aforismo (ou Aforisma) (do Latim aphorismu)

É uma sentença que em poucas palavras se compreende princípio moral. Deriva de aforizo, delimitar, separar, distinguir. Delimitar para provocar o advento do que é sem limites. Aforismo e horizonte procedem do mesmo verbo, ambos circunscrevem o campo do visível, ambos se movimentam com os que se movimentam.

Os aforismos selecionados são de  Baltasar Gracián   ( Belmonte de Gracián , 8 de janeiro de 1601 Tarazona , 6 de dezembro de 1658 ), um importante prosador espanhol do século XVI ao lado de autores como Francisco Quevedo e Miguel de Cervantes , além de teólogo e filósofo . Ele é conhecido como líder do concepticismo , estilo literário caracterizado pela sobriedade e a concisão. Sua obra inclui seis livros: alguns sobre a arte da escrita e outros sobre a ética da vida. É um escritor do Século de Ouro ( Siglo de Oro ). Entre sua prosa didática destacou-se a obra A arte da prudência . obra da qual selecionamos os aforismos.

Os  escritos de Gracián inspiraram grandes pensadores da humanidade, como Voltaire, Nietzsche, Lacan  e Schopenhauer. Até hoje são motivo de reflexão de milhões de pessoas sobre a vida, os costumes, os comportamentos, os desejos. Inspire-se com os aforismos. Eu escolhi esta versão menos "fácil" porque é a mais fiel, a mais profunda.

 

Evitar familiaridades no trato.

Que não devem ser usadas nem permitidas. Quem se rebaixa perde a superioridade que lhe dava sua inteireza, e atrás dela a estima. Os astros, por não roçarem conosco, conservam-se em seu esplendor. A divindade solicita decoro. A humanidade facilita o desprezo. As coisas humanas, quanto mais se têm, têm-se a menos; porque com a comunicação comunicam-se as imperfeições que o recato encobria. Com ninguém convém ter familiaridades: com os maiores, pelo perigo; com os inferiores, pela indecência; muito menos com a ralé, que é atrevida por néscia, e, não reconhecendo o favor que lhe fazem, presume obrigação. A familiaridade é parente da vulgaridade.

Crer no coração.

Mais ainda quando dá provas. Nunca o desminta, pois sói ser prognóstico do que mais importa: oráculo interno. Muitos pereceram do que mais temiam; mas, de que serviu temer sem remediar? Alguns têm coração muito leal, vantagem de superior natureza, que sempre os previne e toca a infelicidade, para remédio. Não é prudente sair para receber os males, mas sim sair ao encontro deles para vencê-los.

Não se escutar.

Pouco aproveita agradar a si mesmo se não se contentam os demais, e de ordinário o desprezo comum castiga a satisfação consigo mesmo. Quem se paga de si mesmo é de todos devedor. Querer falar e ouvir-se não cai bem; e, se é loucura falar-se a sós, escutar-se diante dos outros é loucura dobrada. Vício de alguns senhores é falar com o bordão “falei bem”? e aquele “hem” que aperreia os que escutam: a cada razão, empinam as orelhas para aprovações ou lisonjas, conferindo a cordura. Também os cheios de si falam com eco,e, como sua conversação anda em chapins de arrogância, a cada palavra solicita o enfadonho socorro do néscio “falou bem!”.

Ter amigos.

É o segundo ser. Todo amigo é bom e sábio para o amigo. Entre eles tudo acaba bem. Cada um deles valerá tanto quanto quiserem os demais, e para que queiram é mister ganhar-lhes a boca pelo coração.Não há feitiço como o bom serviço, e para ganhar amizades o melhor meio é fazê-las. Dos outros depende o que mais e melhor  temos. Tem-se de viver com amigos ou com inimigos: que cada dia diligencie para conseguir um, ainda que não íntimo, afeiçoado; pois alguns, passando pelo acerto da escolha, depois ficam como confidentes.

Na sorte próspera prevenir-se para a adversa.

De bom alvitre é no estio fazer a provisão para o inverno, e com mais comodidade; são baratos os favores, há abundância de amizades. Bom é guardar para o mau tempo, que a adversidade é cara e carecente de tudo. Que haja retém de amigos e agradecidos, pois algum dia se dará apreço ao de que hoje não se faz caso. A vilania nunca tem amigos na prosperidade porque os desconhece; na adversidade, são eles que a desconhecem.

Nunca tomar o pior partido por teima,

por ter o adversário se adiantado e escolhido o melhor. Já se começa vencido, e assim será preciso ceder desairado. Nunca se vingará o bem com o mal. Foi astúcia do adversário antecipar-se e ir ao melhor, e sandice opor-se-lhe depois com o pior. Esses obstinados de obras são mais porfiados que os de palavra, porquanto o risco aumenta desde o fazer até o dizer. Vulgaridade de teimoso é não reparar na verdade só para contradizer, nem na utilidade só para litigar. O atilado está sempre do lado da razão, não da paixão, ou antecipando-se antes ou emendando-se depois, pois, se o adversário é néscio, por esse mesmo motivo mudará de rumo, passando para a parte contrária, com o que piorará de partido. Para tirá-lo do melhor, o único remédio é abraçar o melhor,  pois sua nescidade o fará deixá-lo, e sua teima servirá de desempeço. 

Não ser de vidro no trato.

Muito menos na amizade. Alguns se quebram com facilidade, mostrando a pouca consistência; enchem-se de ofensas enchendo os outros de enfado. Mostram que têm a disposição mais menina que a dos olhos, que não permite ser tocada nem de mentira nem deveras; ofendem-se por u senão, que nem precisam de um não. Têm de ir com tento os que com eles tratam, sempre atentos às delicadezas, guardando-lhes os ares, porque uma aragem os desarvora. Vivem eles ordinariamente de si para si, escravos do prórpio gosto,  pelo qual tudo atropelam, idólattras de sua honrita. A condição de amante tem do diamante a metade no durar e resistir.

Sem mentir, não dizer todas as verdades.

Não há coisa que requeira mais tento que a verdade, que é um sangrar-se do coração. Tanto é mister para sabê-la dizer quanto para sabê-la calar. Perde-se com apenas uma mentira todo o crédito da inteireza: o engano é tido por falta e o enganador por falso, o que é pior. Nem todas as verdades podem ser ditas; umas porque só importam a mim, outras porque importam ao outro.