De abutres e de mortes
Uma criança africana prostrada, à espera da morte enquanto um abutre a observa, é a foto símbolo do século que se encerra. Discursos políticos, planos econômicos, guerras, genocídios, pogrons, doenças pandêmicas e fomes ancestrais, nada é maior, como emblema, do que o menino só ossos e pele, quase uma pedra negra que sempre estivesse ali - descarnada e mirrada como um galho retorcido no solo africano.
O menino não é mais homem... Está morto, embora seu coração pulse como um severino nordestino. Está desumanizado, ainda que, magérrimo, saibamos que ele é biologicamente humano. O abutre está vivo. Seu instinto o humaniza: o ciclo da vida impõe que sua "caça", inerte, em breve tenha os olhos bicados, a boca e a língua comidos como despojos suculentos da carcaça humana. O menino é um bicho ferido, e bicho ferido de morte sequer possui instinto.
A foto vale mais do que todos os tratados teológicos, as exegeses mais eruditas das ciências do homem e da natureza, as declarações de guerra e de paz. A foto vale mais do que rezas, poemas absolutos, explicações divinas, filosofias, sociologias, psicologias, cruzes vermelhas, espiritualismos. A foto é o testemunho ideológico do nosso tempo. Ela pergunta, aos homens de boa vontade (os de má vontade estão ricos e poderosos demais para se importarem), há uma ética do divino ? Há um limite para os deuses, santos e profetas das religiões, animistas e monoteístas? A foto quer saber: o quanto da idéia de Deus está morto no menino africano, bicho ao relento?
Não... meus eruditos de almanaques religiosos. Não me venham como o mito e a mística do "livre arbítrio" humano. Ao inferno com esse "livre arbítrio"! Também não tragam frases feitas, dogmas morais e religiosos. Não me venham, tampouco, com mistificações de "darmas" e "karmas". Não há "karma", não há "darma", não há encarnação para purificar sucessivamente meninos africanos famintos, até que eles tenham uma confortável morte de bom burguês ocidental. Não há nada, entre céu e terra, que explique um ser humano morrer à míngua. Não há explicação transcendental possível para a barbárie que desumaniza o menino.
Somos o abutre que espreita o menino. Somos a Ordem - neoliberal e quetais -, pastoreando a fera-criança que vai, por fim, tombar na terra como uma massa podre. O que temos nós com essa criança? Tudo e nada. Tudo, se ainda nos restar um sentimento de humanidade. Mas não falo dessa humanidade de presépio, caridosa e bem-nascida, de quermesses e feiras beneficentes para os pobres e desamparados. Falo da humanidade que se revolta, critica, luta e revoluciona ordens mortas, podres como o menino africano. Falo da humanidade angustiada ao sentir que o abutre na tocaia da morte não é só um abutre na tocaia da morte.
Se você acha que a foto é só uma foto a mais no século, então você não tem nada a ver com o assunto. Siga em paz. Refestele-se nos shoppings. Enclausure-se nos condomínios. Faça blindagem no seu carro do ano. Sinta terror dos sem-tetos e sem-terras. Reze contritamente. Faça caridade e durma bem. Ainda que os abutres biquem o coração da humanidade, você é intocável.

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