A PAZ ARMADA DE BUSH
A guerra dos Estados Unidos contra o Iraque é o fato bélico mais importante desde que, em 1945, o Enola Gay lançou sobre a cidade japonesa de Hiroshima a bomba atômica que matou cerca de cem mil pessoas, além de ferir outras cem mil. Aquele artefato nuclear encerrou uma época de guerras entre potências bélicas e lançou as condições geopolíticas para o que ficaria conhecido como Guerra Fria . Em 1989, sob os restos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e do muro de Berlim, essa guerra saiu do jogo das relações de poder da política internacional, e durante toda a década seguinte o relativo vácuo de poder viu crescer o mais formidável monstro bélico e político de que humanidade tem conhecimento, desde o Império Romano.
Esse monstro, os Estados Unidos, é hoje a principal ameaça à ordem internacional e à segurança das nações. E não é apenas pelo fato do seu poderio bélico incontrastável. A ameaça norte-americana é perigosíssima para a humanidade porque os dirigentes do governo George Bush encarnam um fundamentalismo democrático que nos parece a contraface do mesmo terrorismo que pretende combater. Esse fundamentalismo democrático despreza o dissenso, ama a guerra, inspira racismo, arroga a si o Direito, julga e executa, como um Deus, os fiéis e infiéis à ordem política e econômica que julga justa e melhor para a humanidade.
As heranças do liberalismo político estão ameaçadas justamente na nação que o incorporou melhor, em termos de pensar e praticar os mecanismos que assegurassem as liberdades mais amplas para os indivíduos e as coletividades. Mas agora, parece-nos, a necessidade de respeitar e solucionar pelo diálogo o dissenso político na arena internacional é uma tarefa acima da capacidade política das elites dessa nação. Assim dizemos porque a democracia à americana é hoje um fundamentalismo democrático, pois encarna, a um só tempo, inspirada em razões econômicas, meio e fim das razões de Estado.
Não foi outra a (des)razão fundamental da máquina nazista: fundar a Pax Alemã, uma ordem política perfeita que pusesse fim, de uma vez e para sempre, ao que fosse feio, ao que fosse diferente, ao que não estivesse conforme um estilo ou modo de ver e sentir o mundo. E daí seguiram-se genocídios de judeus, perseguição e morte de comunistas e liberais, guerras imperialistas que jogaram o mundo no morticínio de dezenas de milhões. Não nos surpreende que o fundamentalismo da era Bush, como o nazismo, tenha sempre por inimigos raças que se agrupam em religiões distintas do seu cristianismo reacionário.
Os Estados Unidos não resistiram à tentação de todas as nações que ao longo da história se afirmaram como impérios econômicos e bélicos: tentar se impor como valor político e moral modelar para as outras nações. Arrogar-se a intérprete, a juiz e a executor exclusivo dos conflitos. Daí ser possível sustentar que a elite norte-americana flerta o totalitarismo. Suponho que ainda não estejam objetivas as condições para o fundamentalismo democrático picar com sua peçonha as instituições dos Estados Unidos. Mas um grande revés nessa guerra (a resistência de Bagdá e, em seguida, a retirada das tropas invasoras) será o teste definitivo do fundamentalismo. Se os EUA não lançar o mundo em uma guerra e os fascistas que compõem o conselho de Bush caírem (ele inclusive), então a tentação totalitária vai recolher-se de novo e os países poderão pensar uma política de pacificação mundial, sob uma ONU refundada e democrática em que países como o Brasil tenham o seu peso moral e político considerado na proporção devida.
Que os iraquianos resistam, para o bem da humanidade. Que a paz prevaleça.

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