Ética e antijornalismo
Os programas jornalísticos da maioria das emissoras de TV locais exploram a miséria e exclusão social sob o pretexto de mostrá-las. Vemos, hoje, o sensacionalismo em nome do suposto interesse público. A invasão à vida privada e à intimidade dos cidadãos é uma prática banalizada, a ponto de poucos telespectadores (até mesmo aqueles com maior nível de escolarização) perceberem a mentira e o engodo como princípios que norteiam esse jornalismo, na verdade, um antijornalismo.
A nossa crítica ao jornalismo "mundo-cão" é moral, não moralista. O anti-jornalismo explora as notícias a partir de elementos periféricos: se uma mulher é surrada pelo marido, os repórteres, ávidos como hienas esfaimadas, querem saber antes se ela "chifrava" o marido ou companheiro; se alguém é morto numa escadaria de morro, o registro esgota-se na cena da poça de sangue, no olhar bestificado ou medroso dos moradores, e nos comentários recheados de hipócritas lugares-comuns do repórter: "onde essa violência vai parar, meu Deus do céu?" ou "As autoridades não tomam providências para acabar com isso?".
O antijornalismo hoje dominante está na razão direta do enfraquecimento das instituições democráticas diante dos interesses de mercado. As razões de mercado ditam o discurso dos apresentadores, influenciam o formato dos programas, as pautas, a cobertura e a edição dos fatos. A guerra pela audiência rebaixa e envilece o jornalismo. Abandona-se qualquer princípio ético. A violência é institucionalizada a partir mesmo da receita da redação, na qual muitos jornalistas (até antigos e experientes) embrutecem o espírito de jovens recém-saídos das universidades. A cobertura noticiosa policial da TV Tribuna, TV Pernambuco e TV Jornal do Commercio são anti-sociais e anti-humanos: o homem, neles, é apenas fera; o homem, neles, é apenas gente de periferia; a realidade, neles, é uma construção verbal e de imagens que, embalada pelo sensacionalismo, naturaliza a coerção da miséria, o autoritarismo (jornalístico e das instituições civis) e o fascismo das elites econômicas locais, que vêem o povo como objeto manipulável, "bichos" sem noção de beleza, sem princípios éticos, sem valores morais.
O efeito do antijornalismo é perverso na esfera pública e privada, mas é sobretudo deletério para a cidadania porque falseia a mediação jornalística na sua função de controle social. O antijornalismo vê e lê o fato pela lógica de um mundo em guerra (com o lucro como o princípio de tudo), mas, ao mesmo tempo, filtra politicamente o que pode ou não pode ser noticiado. Como explicar, por exemplo, o silêncio absoluto do jornalismo local sobre as recentes acusações contra o deputado Pedro Correa Neto, presidente nacional do PP, suspeito de envolvimento em maracutaias privadas. Não se trata, a rigor, de assunto policial importante, a ser apurado por um jornalismo isento e sério? Por que a verbosidade falsamente revoltada dos programas policiais (ou noticiosos locais) não pauta o deputado pernambucano? Na verdade, o antijornalismo só pode e quer controlar a periferia, os guetos, os miseráveis, fazendo-os marionetes no espetáculo do pão e circo.
Não temos ilusões sobre esse antijornalismo como fenômeno histórico-social. Sempre haverá repórter e público para promovê-lo. No entanto, cabe-nos, e à cidadania que tanto clama por paz, tentar demonstrar o perigo que esse jornalismo representa para as liberdades civis, a democracia e a cultura. O anti jornalismo é o vale-tudo de um mercado e de uma irracionalidade que faz do homem um estranho ao próprio homem. E, ao não se reconhecer no homem como ser moral e social, o jornalismo nega os seus princípios. A verdade, a ética e a credibilidade devem estar acima dos interesses e "razões" competitivas de mercado.

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