índice do site dados curriculares contato via formulário
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 

 

 
 
 

Ética e violência

A banalização da violência na sociedade brasileira tem provocado um fenômeno que é a medida de nossa impotência e desespero para conter a criminalidade e a barbarização das relações sociais. Trata-se de um complexo reativo, na forma de ondas de protestos que se seguem a um crime particularmente chocante - seja porque atingiu um "intocável" (alguém integrante do círculo dos incluídos), seja porque envolveu excluídos. A reação existe na proporção do estímulo da mídia sobre o caso. E depois tudo se dilui, restando o sentimento de desamparo e impotência das pessoas diante do quadro de desagregação social, terror e angústia.

As ondas de protestos e apelos, contudo, têm se esgotado em sua vertente emocional: simbolizam uma espécie de catarse coletiva, um desafogo da alma ante a irracionalidade das mortes trágicas. Mas dizer "basta de violência", não basta, se quisermos encarar de frente este dragão da maldade contemporâneo. De qual violência estamos falando? Qual é a paz que queremos? Estas perguntas são pertinentes, pois é necessário aprofundar a compreensão da violência numa perspectiva além das viseiras ideológicas comuns ao debate, traduzidas na forma de preconceitos sociais, classistas, culturais, étnicos etc.

Um dos problemas no debate da violência é despolitizá-la , isto é, discutí-la como efeito puro e simples da "maldade humana", da "monstruosidade de gente desalmada". As campanhas pela pena de morte e pelo endurecimento das penas se nutrem da idéia de que um Estado de "leis fortes" pode bloquear a violência. O apelo ao poder coercitivo dos aparelhos repressivos estatais é antigo, inútil, perigoso e, muitas vezes, ideologicamente ingênuo. Politizar a questão da violência é, por exemplo, discutir o "modelo" de sociedade atual (social e economicamente excludente), e o "modelo" de segurança pública ideal ou possível - nos termos de nossa cultura sociopolítica autoritária na esfera pública, e individualista na esfera privada.

A outra questão está relacionada com a interseção entre a ética e a violência, posto que discutir sobre a violência em todas as suas formas e tipos implica, também, na discussão do agir ético humano na sociedade - em relação a si mesmo e em relação ao seu semelhante. Não falamos da ética enquanto disciplina normativa do exercício das profissões. Referimo-nos à ética na perspectiva pluralista de uma sociedade de complexos e profundos desníveis nas faixas de renda das classes, graus de escolaridade, assistência médico-odontológica, acesso a transportes de qualidade e lazer, além da possibilidade de construir/habitar um teto próprio.

É urgente incluir a ética no debate da violência - senão como contraface a este mal-estar na civilização, pelo menos como um dos eixos sobre o qual podemos racionalizar a violência e enxergá-la como fenômeno político, na acepção aristoteliana do termo. Incluir a ética significa reconhecer a violência como fenômeno patológico e sociocultural interrelacionados. Não é ético matar ou furtar. Não é ético o salário mínimo. Também não é ético pagar ou receber propina, furar filas, avançar sinais, ter atitudes sexistas e racistas. Ambos os tipos de "delitos" se interrelacionam estreitamente (e talvez venha daí a tendência de satanizar exclusivamente a face visível da violência marginal, pois necessitamos aplacar o nosso mal-estar atirando a velha "primeira pedra" nos "culpados" de sempre ).

A sensação de que a violência explodiu nos grandes centros urbanos é efeito da visibilidade que o fenômeno ganhou, dado que, agora, ela rompeu os diques e guetos sociais da periferia. Desceu os morros, saiu das favelas e ganhou o asfalto, as praias e os bairros de classe média. No cotidiano de banalização deste tipo de violência, o agir aético nas atitudes pessoais/coletivas, porque arraigado nos costumes, fica encoberto, quase sancionado como uma dimensão supostamente inofensiva da cultura do "jeitinho" brasileiro. "Jeitinho" que é, no fundo, coisa de otário metido a esperto. Contudo, este agir aético é um tipo de violência tão ou mais deletério do que a violência marginal, pois a nossa sociedade - egoísta, autoritária e excludente - nutre-se no caldo de cultura da impunidade "legal" do decantado "jeitinho".

Se queremos a paz, certamente não é a paz ilusória de uma sociedade policial , com seus cidadãos armados e as casas sitiadas por nossos próprios medos. Se queremos a paz, comecemos a olhar o nosso agir ético, a discutir se estamos realmente bem quando o mundo real explode, lá fora, sob a forma de meninos-fantasmas nos sinais, meninos-feras nos assaltos e meninos-operários no sustento de famílias miseráveis.